A Solidão e o Gato preto ... (aliás a gata preta !!!)

Eu falo sobre tanta coisa e tão pouco sobre meu cotidiano ...

Hoje fiz pizza, peguei uma receita na internet e botei a mão na massa ... (modéstia parte como uma exímia dona de casa prendada tenho mãos para culinária).

Em quanto a massa crescia fiz tarefa com meu filhote e antes dela terminar de assar, olhei no meu quarto e ele estava lá, todo encolhidinho na cama dormindo ...

Eu comi sozinha ouvindo um rockzinho de leve e tomando fanta uva na taça de vinho.

É ruim comer sozinha, em quanto meu marido está lá cobrindo um grande bafão policial que sairá nos jornais quentinho amanhã de manhã o que sobrou da pizza (quase tudo) esfria na cozinha ...

mãs ....

Apesar de dizerem que gato preto é mal agouro eu tenho uma de companhia, e ela me segue por onde eu  vou, até nos momentos mais íntimos em que estou no banheiro ela está lá sentada me olhando com uma cara de paisagem ...

Eu não acredito nessas superstições católicas inquisidora da época medieval ...  minha preta não me dá azar, ao contrário disso me faz muita companhia e me dá muita alegria.

E sem essa de que gatos não são companheiros ... ela vai junto comigo lá fora no frio quando vou fumar meu maldito cigarro, fica sentada ao meu lado até eu terminar ... As vezes quando estou andando tenho que dançar para não pisar nela.

Agora por exemplo ela está deitada em cima do meu monitor (sim, meu pc é velho hahahahaha) e hoje o post é pra Yoko preta Criolina companheira pra todas as horas !!!!



Ode ao Gato 
Artur da Távola


Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso.
Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.



O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.




Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?



Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.







"Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.





O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. 



Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.



Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.




Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. 


O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.


O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. 


Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali". Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.



O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.


Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.



O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!



Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.



O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.





Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.







Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.


O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem."




Ode ao Gato 
Pablo Neruda



Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.


Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.


(Todas as ilustrações desse post foram registradas pela minha lente sob o meu olhar)

14 comentários:

Leandro Luz disse...

hahaha' Tem um gato aqui em casa que também não é mole! O lugar preferido dele é sob nossos pés! Nunca vi ser tããão carente! ;D

Maryy disse...

Eu não tenho gatos, mas tenho uma cachorrinha que tbm faz companhia sempre.
Adoro bichinhos de estimação, não vivo sem...
Obrigada pela visita no meu blog =D
Seguindo ô//

Mônica Wesley disse...

Eu não gostava muito de gatos, sempre são ligados as má vibrações em filmes de terror e talz... Na verdade tenho um pouco de medo de gato, eu não consigo identificar o que os olhos de um gato querem dizer, o que já não acontece com os cachorros. Gato é muito independente embora seja carente, deveria me identificar mais com eles.
Comecei a mudar minha visão sobre gatos, depois que vi esse video, choreiii!!!! Vc já viu?
http://www.youtube.com/watch?v=Ldl1Adp1Kbk

Muito lindooo!!!!!
Finalizando, parabéns!!!! Cuida de filho, marido, gato e ainda tem tempo pra fazer belos posts!!! o/
Eu moro sozinha, não cuido de ninguém além de mim(e mais ou menos =P), não tenho plantas, não tenho gato, nem cachorro e o único animal que penso em ter algum dia, pra não dar tanto trabalho é um peixe ou uma tartaruga! O_O

Anita disse...

amooo gatos!!! adoro esse ar de misterio envolto sobre eles. adorei o post

Gildson Souza disse...

Apesar de não ter gatos e gostar mais dos cachorros e gostei da postagem! uma baite declaração de amor, hein?

- sáminina. disse...

Ai que post lindo! Confesso que nunca gostei muito de gatos... acho que são lindos, mas não os acho muito carregados de afeto como os cachorros (que eu amo!)
Mas acredito que cada pessoa desenvolve um sentimento especial pelo bichinho de estimação que tem, sendo gato, cachorro, periquito, papagaio. tartaruga e outros; eu tenho uma amiga que tem um furão e ela tem o maior amor pelo bichinho.
O importante é amá-los no final. Até os gatos, indiferentes, gostam disso.

Me, mim, comigo. disse...

Adoro quem valoriza as minúcias do dia, e as coisas simples da vida. Particularmente nunca gostei de gatos, sempre "inventei" uma alergia pra não ficar muito perto deles, mas acredito em tudo o que disse. Que eles podem sim ser companheiros, até nos momentos íntimos! haha.. enfim, gostei e to te seguindo baby!

Evelyne V. Nami disse...

Adorei o post, lindas fotos e muito boa as escolhas das Odes.
E sobre Spn, tô com muita vontade de ver o ep, mas tô deixando pra mais tarde para ficar com mais expectativa, afinal é o fim da melhor temporada.
Bjo, até!!!

JeEH disse...

Oi Arathane, seja SUPER BEM VINDA ao Repensando. Sobre a parceriia, quero SIM fazer. Também adorei o teu blog. Achei interessante o lance sobre os gatos. Serve pra dismistificar muita coiisa, inclusive q tinham me falado.
:)
Ideias, troca de idéias, sugestões... estamos aqi. Adoro novas amizades

http://repensandoaqui.blogspot.com

♥ Evelin Pinheiro ♥ disse...

Ain... que legal!
É bom de vez em qdo falarmos sobre nosso dia-a-dia!
E detalhe: amoo gatos!! São sempre ótimas companhias!
Sinto saudades de ter um... aki em casa só um poodle toy, visto que moro num AP e nem dá pra ter gatos aki... "/

BjO pra tu mocinha, e boa semana!*-*

http://www.evesimplesassim.blogspot.com/

melimaenomenon disse...

Ahhh, eu adoro gatos, os acho divertidíssimos! No meu prédio animais são proibidos, então só tive peixes - que não deixam de ter sua graça... Mas, sempre que vou à casa de alguém, curto horrores com esses bichinhos hehehe

A propósito, linda LINDA sua gata! Acho os gatos pretos um dos mais lindos *-*


ps: obrigada MESMO por mais um selinho, tou numa correria louca que acabei esquecendo de comentar



Beijo e boa semana ;*

Loverocklive disse...

Otimas fotos
perfeito seu texto


adoro seu blog

Evelyne V. Nami disse...

Oi, tem um selo pra vc lá no meu blog. Espero q goste!
Bjo

Art by Lu disse...

Lindo post! = )
Sei que sou suspeita pra falar, rsrsrs, mas amo gatos, amo cães, amo pássaros, enfim, tudo quanto é animal não-humano.
Muitas pessoas tem esse pé atras com gatos por esperar que ele se comporte da mesma maneira que um cão. Isso não vai acontecer. Gato é gato, cão é cão e ambos tem seus encantos. E ambos são carinhosos e companheiros.
Beijão!! = )